Como estruturar gestão de riscos em obras públicas integrando planejamento, projeto, orçamento, matriz de riscos, contrato, fiscalização e execução.

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A gestão de riscos em obras públicas é o processo contínuo de identificar, analisar, avaliar, tratar, monitorar e comunicar incertezas capazes de comprometer objetivos de custo, prazo, desempenho, qualidade, segurança, contratação e entrega do empreendimento. Ela começa antes da licitação e não se encerra com a assinatura do contrato: acompanha o investimento desde a definição da necessidade até o recebimento e a entrada em operação.

Em engenharia pública, risco não deve ser tratado apenas como uma tabela de probabilidade e impacto nem confundido com a matriz contratual de alocação de riscos. A primeira pergunta é operacional: quais eventos podem impedir que o investimento alcance o resultado esperado? A segunda é decisória: quais ações reduzem exposição antes que o evento ocorra? A terceira é contratual: quando um risco permanecer, quem possui melhores condições de gerenciá-lo e suportar seus efeitos?

A Lei nº 14.133/2021 reforça essa lógica ao exigir práticas contínuas e permanentes de gestão de riscos e controle preventivo nas contratações públicas. Para obras e serviços de engenharia, isso conecta planejamento, ETP, projeto, orçamento, estratégia de contratação, matriz de riscos, fiscalização, mudanças, medições e recebimento em um mesmo sistema de governança.

Um registro de riscos só produz valor quando altera decisões. Identificar “atraso da obra” como risco genérico é insuficiente. É necessário explicitar causas, eventos, consequências, responsáveis, indicadores, ações preventivas, contingências, prazos e risco residual. Em outras palavras, gestão de riscos precisa transformar incerteza em trabalho de engenharia e governança.

Gestão de riscos não é apenas matriz de riscos

Risco relevante sem owner, prazo, ação e evidência de tratamento continua sendo apenas uma preocupação documentada. Estruture o processo para transformar incertezas em decisões e ações rastreáveis.

Gerenciamento de Riscos de Engenharia

Uma das confusões mais comuns em contratações públicas é usar “gestão de riscos”, “análise de riscos” e “matriz de riscos” como sinônimos. Eles se relacionam, mas cumprem funções diferentes.

A gestão de riscos é o sistema contínuo que organiza objetivos, identificação, análise, avaliação, tratamento, monitoramento e comunicação. A análise de riscos é uma parte desse processo, voltada a compreender natureza, probabilidade, impacto, causas e consequências. Já a matriz de alocação de riscos é instrumento contratual que distribui entre Administração e contratado responsabilidades por eventos supervenientes e seus efeitos econômico-financeiros.

Essa diferença é relevante porque uma obra pode ter uma matriz contratual formalmente correta e, ainda assim, ser mal gerida. Riscos de projeto, interferências, licenciamento, desapropriação, disponibilidade de área, interfaces, fornecimentos críticos, produtividade, restrições operacionais e documentação precisam ser acompanhados como exposições vivas, não apenas como cláusulas estáticas.

InstrumentoPergunta principalResultado esperado
Gestão de riscoso que pode afetar os objetivos e como responder?processo contínuo de controle da exposição
Análise de riscosqual é a natureza e severidade da incerteza?criticidade e priorização
Registro de riscosquais riscos estão ativos e quem responde por eles?rastreabilidade de owners, ações e status
Matriz de alocaçãoquem assume cada risco contratual?distribuição de responsabilidades
Contingênciaquanto reservar para exposição residual?proteção de custo e prazo
Gate reviewa exposição residual permite avançar?decisão de continuidade, condicionamento ou retorno

O TCU destaca que a análise de riscos da contratação não se confunde com a matriz contratual. A primeira deve apoiar o planejamento e o tratamento dos eventos que podem comprometer a contratação; a segunda formaliza a repartição de riscos entre as partes quando aplicável.

O risco precisa ser definido em relação aos objetivos do investimento

Não existe risco sem objetivo. Se a organização não definiu claramente o que o empreendimento deve entregar, em que prazo, com qual desempenho e dentro de quais limites, qualquer registro de riscos tende a virar uma lista genérica de preocupações.

Em uma obra pública, os objetivos podem incluir:

  • entregar determinada capacidade funcional;
  • atender prazo associado a convênio, financiamento ou política pública;
  • manter custo dentro da autorização orçamentária;
  • assegurar desempenho, segurança e vida útil;
  • preservar operação existente durante a implantação;
  • cumprir condicionantes ambientais e regulatórias;
  • disponibilizar documentação suficiente para operação e manutenção;
  • realizar recebimento técnico com evidências objetivas.

Um bom processo de risco parte desses objetivos e pergunta o que pode impedi-los de ser alcançados. Assim, “atraso” deixa de ser um risco isolado e passa a ser uma consequência possível de causas concretas: projeto incompleto, licença pendente, interferência não levantada, long lead item não identificado, mudança de escopo, baixa produtividade, indisponibilidade de frente, evento climático, decisão tardia ou interface contratual sem owner.

O ciclo de risco acompanha o ciclo completo da obra pública

Quando riscos de levantamento, projeto, orçamento e contratação permanecem abertos antes do edital, a organização pode transferir incerteza para a fase mais cara do investimento. A revisão da maturidade técnica ajuda a tratar exposição antes do compromisso contratual.

Planejamento Técnico de Contratações de Engenharia

A exposição muda ao longo da maturidade do investimento. Riscos que podem ser eliminados no ETP custam muito mais quando descobertos em campo. Outros só surgem durante execução ou operação. Por isso, o registro precisa evoluir com o projeto.

Gestão de riscos ao longo do ciclo de uma obra pública

riscos de definição

riscos técnicos e de custo

riscos de alocação

riscos de prazo, qualidade e mudanças

riscos residuais

Necessidade

ETP e viabilidade

Projeto e orçamento

Licitação e contrato

Execução

Testes e recebimento

Operação

Gestão de riscos ao longo do ciclo de uma obra pública

Planejamento e ETP

No planejamento, a gestão de riscos deve testar premissas fundamentais: condição existente, disponibilidade de área, demanda, alternativas tecnológicas, interfaces, requisitos, licenças, restrições e capacidade institucional. Um ETP bem estruturado reduz incertezas antes que elas sejam incorporadas ao objeto.

Quando levantamentos de campo são insuficientes, o risco não desaparece; ele apenas é transferido para fases em que a correção custa mais. A própria vertical de Capital Projects em Obras Públicas trabalha esse princípio de maturidade antes de cada compromisso relevante.

Projeto e definição técnica

Durante anteprojeto, Projeto Básico e Projeto Executivo, o foco migra para interfaces, critérios de desempenho, compatibilização, construtibilidade, quantidades, método executivo, acessos, sequenciamento, interferências e testabilidade.

Projeto incompleto é fonte de risco de custo, prazo e mudança. Por isso, o Design Review pode funcionar como mecanismo preventivo: identifica incompatibilidades antes que sejam transformadas em compras, contratos ou serviços executados.

Orçamento e cronograma

Risco precisa conversar com custo e prazo. O orçamento de obras públicas deve explicitar premissas e exposições que possam alterar quantitativos, produtividade, logística, mobilização, preços e duração.

Um cronograma determinístico também pode esconder risco. Quando datas críticas dependem de licenciamento, aprovação, importação, liberação de área ou decisão externa, essas dependências precisam aparecer como drivers e não apenas como notas laterais.

Licitação e contrato

Na licitação, parte dos riscos precisa ser eliminada pela melhoria do pacote técnico; parte precisa ser mitigada por requisitos, critérios de medição, seguros, garantias, governança e mecanismos de mudança; e parte pode ser formalmente alocada entre as partes.

A matriz contratual não deve servir para transferir ao contratado qualquer incerteza que a Administração deixou de estudar. A alocação eficiente depende de capacidade real de gerenciamento, informação disponível e relação com as obrigações contratuais.

Execução e fiscalização

Durante a obra, a gestão de riscos passa a depender fortemente de evidências de campo, avanço físico, qualidade, submittals, RFI, não conformidades, mudanças, produtividade, interfaces e tendências de custo e prazo.

Risco que permanece meses com status “alto” e sem ação efetiva não está sendo gerenciado. O acompanhamento precisa verificar se as ações foram executadas, se reduziram probabilidade ou impacto e se surgiram riscos secundários.

Comissionamento, recebimento e operação

No encerramento, a atenção migra para pendências, testes, documentação, treinamento, performance, As-Built, Data Book e condições de operação. Um empreendimento fisicamente concluído pode carregar risco residual elevado se critérios de aceite não foram demonstrados.

Como escrever um risco de forma útil

Riscos de projeto devem ser reduzidos antes que incompatibilidades se transformem em compras, serviços executados ou pleitos. Revisão independente permite verificar interfaces, requisitos, construtibilidade e maturidade.

Design Review em Projetos de Engenharia

Um risco bem formulado deve separar causa, evento e impacto. Isso evita registros vagos e aproxima o risco das ações de tratamento.

Exemplo ruim: “risco de atraso na obra”.

Exemplo melhor: “devido à ausência de aprovação do projeto pela concessionária até a data de mobilização, pode ocorrer atraso na energização definitiva, resultando em postergação dos testes integrados e do recebimento técnico”.

A formulação permite identificar ações específicas: responsável pela submissão, prazo de aprovação, interface com concessionária, alternativa provisória, milestone afetado e gatilho para contingência.

Um registro de riscos consistente pode conter:

CampoFunção
IDrastreabilidade
categoriaagrupar exposição por natureza
causacondição que origina o risco
eventoocorrência incerta
consequênciaefeito sobre objetivos
probabilidadechance estimada de ocorrência
impactomagnitude do efeito
criticidadepriorização
ownerresponsável por gerenciar o risco
ação preventivareduzir probabilidade
ação de mitigaçãoreduzir impacto
contingênciaresposta caso o evento ocorra
triggerindicador de materialização
prazodata limite para ação
risco residualexposição após tratamento
statusaberto, monitorado, materializado ou encerrado

Avaliação qualitativa: probabilidade e impacto não bastam sozinhos

A matriz probabilidade x impacto é útil para priorização, mas pode gerar falsa precisão quando os critérios não são definidos. “Alta probabilidade” precisa significar algo dentro do contexto do empreendimento. O mesmo vale para impacto.

É possível estabelecer critérios por dimensão:

  • impacto financeiro em relação ao orçamento;
  • impacto de prazo em dias ou milestones;
  • efeito sobre desempenho ou capacidade;
  • gravidade de segurança;
  • consequência regulatória;
  • impacto reputacional;
  • efeito sobre continuidade operacional;
  • impacto sobre benefício público esperado.

Projetos complexos podem exigir análise separada por dimensão em vez de um único score agregado. Um risco pode ter baixo efeito financeiro e impacto crítico de segurança, por exemplo.

Também é importante distinguir risco inerente e risco residual. O primeiro representa a exposição antes do tratamento; o segundo, após controles e ações. A decisão de avançar deve olhar principalmente para o residual.

Quantificação: quando risco precisa entrar no custo e no prazo

Nem todo empreendimento exige simulação probabilística. Entretanto, projetos de maior porte, longa duração ou alta incerteza podem se beneficiar de técnicas quantitativas.

A quantificação pode apoiar:

  • definição de contingência de custo;
  • contingência de prazo;
  • comparação entre alternativas;
  • avaliação de probabilidade de cumprir determinada data;
  • análise de exposição agregada;
  • priorização de mitigação;
  • avaliação econômica de tratamento.

O ponto central é não confundir contingência com margem arbitrária. Uma reserva tecnicamente defensável deve estar relacionada a riscos identificados, premissas, maturidade e método de estimativa.

A Lei nº 14.133/2021 prevê que a alocação de riscos pode produzir reflexos no valor estimado da contratação. Isso reforça a necessidade de coerência entre risco, orçamento e contrato.

Matriz de riscos: alocar não significa gerenciar

A Lei nº 14.133/2021 admite que edital e contrato contemplem matriz de alocação de riscos e a torna obrigatória em obras e serviços de grande vulto e nos regimes de contratação integrada e semi-integrada.

A matriz deve buscar alocação eficiente. Isso significa atribuir o risco a quem possui melhores condições de preveni-lo, controlá-lo, segurá-lo ou responder a seus efeitos — e não simplesmente à parte com menor poder de negociação.

Exemplos de perguntas úteis na alocação:

  • quem controla a causa do risco?
  • quem possui melhor acesso à informação?
  • quem consegue reduzir probabilidade ou impacto?
  • o risco é segurável?
  • a parte receptora consegue precificá-lo?
  • a transferência cria prêmio de risco excessivo?
  • o evento está relacionado a obrigação já atribuída no contrato?
  • a alocação é compatível com o regime de execução?

A Matriz de Alocação de Riscos em Contratos de Engenharia deve ser construída em coerência com o registro de riscos, mas não o substitui.

Riscos típicos em obras públicas

A lista concreta varia conforme o empreendimento, porém algumas categorias aparecem repetidamente.

Definição e escopo

  • necessidade mal caracterizada;
  • requisitos incompletos;
  • solução escolhida prematuramente;
  • interfaces não identificadas;
  • alteração de demanda durante desenvolvimento.

Condição existente

  • levantamento cadastral incompleto;
  • interferências subterrâneas;
  • capacidade insuficiente de infraestrutura existente;
  • As-Built desatualizado;
  • passivos não identificados.

Projeto

  • incompatibilidade entre disciplinas;
  • dimensionamento insuficiente;
  • critérios de desempenho ausentes;
  • construtibilidade inadequada;
  • dependência de decisão tardia.

Orçamento e prazo

  • quantitativos inconsistentes;
  • composições inadequadas;
  • produtividade incompatível;
  • data-base defasada;
  • cronograma sem restrições e interfaces;
  • contingência sem metodologia.

Contratação

  • regime de execução incompatível com a maturidade do projeto;
  • habilitação desproporcional;
  • matriz de riscos incoerente;
  • critérios de medição ambíguos;
  • responsabilidades de interface sem owner.

Execução

  • baixa produtividade;
  • submittals atrasados;
  • não conformidades recorrentes;
  • mudanças sem análise integrada;
  • fornecimentos críticos atrasados;
  • decisões técnicas pendentes;
  • indisponibilidade de frente de serviço.

Encerramento

  • testes incompletos;
  • documentação insuficiente;
  • pendências críticas abertas;
  • As-Built divergente;
  • treinamento não concluído;
  • critérios de performance não demonstrados.

Risk owner: todo risco relevante precisa de responsável

Registrar risco sem owner cria responsabilidade difusa. O owner não é necessariamente a pessoa que executará todas as ações, mas quem deve assegurar que o risco seja acompanhado, tratado e escalado.

Em obras públicas, owners podem estar em áreas distintas: engenharia, contratação, jurídico, orçamento, fiscalização, gestão do contrato, operação, concessionárias ou terceiros. Por isso, o registro precisa dialogar com governança e matriz de responsabilidades.

O owner deve saber:

  1. quais ações estão sob sua responsabilidade;
  2. qual prazo existe para executá-las;
  3. qual evidência comprova conclusão;
  4. qual trigger exige escalonamento;
  5. qual risco residual permanece após o tratamento.

Risk review deve acompanhar a cadência do projeto

Gestão de riscos perde valor quando ocorre apenas em workshops esporádicos. O processo deve ser integrado à rotina decisória.

Uma reunião de risco pode revisar:

  • novos riscos identificados;
  • mudanças de probabilidade ou impacto;
  • ações vencidas;
  • riscos materializados;
  • eficácia dos tratamentos;
  • riscos residuais acima da tolerância;
  • impactos em custo e cronograma;
  • decisões que precisam de sponsor ou autoridade;
  • riscos que podem ser encerrados.

O registro precisa ter data de atualização e histórico de decisões. Risco encerrado também deve manter rastreabilidade: por que deixou de ser relevante, qual ação foi concluída ou qual evento ocorreu.

Gestão de riscos e Project Controls precisam trabalhar juntas

Risco, custo e prazo precisam compartilhar a mesma baseline. Project Controls transforma exposição em impacto sobre milestones, forecast, tendências e contingência.

Gestão de Projetos e Project Controls

Risco, custo e prazo não devem existir em sistemas desconectados. Um risco relevante de atraso precisa estar relacionado aos marcos que afeta; um risco financeiro deve conversar com forecast e contingência; uma ação de mitigação pode consumir orçamento e alterar o cronograma.

O Project Controls oferece essa integração por meio de baseline, progresso, tendências, forecast, custo e prazo. Quando o risco é conectado a esses controles, a organização deixa de discutir apenas “possibilidades” e passa a enxergar impacto sobre a previsão de entrega.

Indicadores úteis podem incluir:

  • exposição agregada por categoria;
  • riscos críticos sem ação aprovada;
  • ações vencidas;
  • riscos materializados no período;
  • consumo de contingência;
  • impacto potencial no caminho crítico;
  • quantidade de riscos acima da tolerância;
  • aging de riscos abertos.

Gestão de mudanças é parte da resposta ao risco

Mudanças não são necessariamente falhas. O problema surge quando são incorporadas sem análise de causa, impacto, responsabilidade e efeito acumulado.

Um risco pode se materializar e gerar necessidade de mudança. Nesse momento, o fluxo deve migrar de incerteza para fato: registrar ocorrência, avaliar impacto, definir tratamento, estabelecer responsabilidade, verificar efeitos em custo e prazo e atualizar baseline quando aprovado.

A análise técnica de aditivos, alterações de escopo e pleitos ajuda a manter essa transição documentada.

Fiscalização deve usar o registro de riscos como instrumento de prioridade

Fiscalização não precisa tratar todos os itens com a mesma intensidade. A abordagem baseada em risco ajuda a concentrar inspeções, verificações, testes e evidências nos pontos capazes de produzir maior consequência.

Exemplos:

  • componentes de segurança crítica podem exigir hold points;
  • interfaces irreversíveis devem ser verificadas antes de fechamento;
  • itens com longo prazo de reposição precisam de acompanhamento antecipado;
  • serviços ocultos exigem registro antes de cobertura;
  • testes de desempenho precisam ser planejados antes da conclusão física.

O Apoio Técnico à Fiscalização pode transformar o registro de riscos em plano de acompanhamento e evidências de conformidade.

Gate review: risco residual deve influenciar a autorização de avanço

A lógica de maturidade da vertical de investimentos públicos pressupõe que cada compromisso relevante tenha critérios de readiness. O risco residual é um desses critérios.

Antes de publicar edital, por exemplo, a Administração pode verificar se existem riscos críticos de levantamento, projeto, orçamento, licença ou interface ainda sem tratamento. Antes de iniciar construção, pode verificar disponibilidade de área, projetos liberados, submittals, fornecedores críticos e restrições. Antes de receber, pode verificar pendências, testes, documentação e riscos operacionais.

A decisão pode ser:

  • Ready: exposição residual compatível com o avanço;
  • Ready with Conditions: avanço permitido com condicionantes explícitas;
  • Not Ready: exposição incompatível com o próximo compromisso.

Essa lógica evita que o calendário substitua a maturidade técnica.

Erros comuns na gestão de riscos de obras públicas

Alguns padrões reduzem drasticamente a utilidade do processo:

  • criar registro apenas para atender requisito documental;
  • registrar consequências genéricas em vez de causas e eventos;
  • usar somente matriz probabilidade x impacto sem plano de tratamento;
  • confundir análise de riscos com matriz contratual;
  • transferir ao contratado riscos que a Administração deveria reduzir por melhor planejamento;
  • não associar risco a owner e prazo;
  • não conectar risco a orçamento e cronograma;
  • manter riscos críticos sem escalonamento;
  • encerrar risco sem evidência;
  • não atualizar o registro após mudanças relevantes;
  • tratar contingência como percentual arbitrário;
  • discutir risco apenas após o problema ocorrer.

Como estruturar um sistema prático de gestão de riscos

Uma implantação objetiva pode seguir esta sequência:

  1. definir objetivos e critérios de sucesso do empreendimento;
  2. estabelecer categorias e critérios de avaliação;
  3. identificar riscos com participação multidisciplinar;
  4. escrever causa, evento e consequência;
  5. avaliar probabilidade, impacto e criticidade;
  6. definir owner;
  7. selecionar respostas: evitar, reduzir, transferir, compartilhar ou aceitar;
  8. detalhar ações, prazos e evidências;
  9. definir contingências e triggers;
  10. avaliar risco residual;
  11. integrar riscos ao orçamento, cronograma, contrato e fiscalização;
  12. revisar periodicamente;
  13. registrar riscos materializados e lições aprendidas;
  14. utilizar exposição residual nos gates de decisão.

Esse sistema deve ser proporcional ao porte e à complexidade do investimento. Uma obra pequena não precisa replicar a governança de um megaprojeto, mas todo empreendimento precisa de uma forma explícita de reconhecer e tratar as principais incertezas.

Considerações finais

Gestão de riscos em obras públicas é uma disciplina de decisão, não uma formalidade documental. Seu valor está em antecipar eventos, direcionar investigação, priorizar controles, proteger custo e prazo, melhorar a alocação contratual e dar visibilidade às incertezas que permanecem antes de cada compromisso relevante.

A Lei nº 14.133/2021 cria uma base clara para práticas contínuas de gestão de riscos e controle preventivo. O TCU reforça que o processo deve partir dos objetivos e envolver identificação, análise, avaliação, tratamento e reporte. Em engenharia, essa lógica precisa ser materializada em levantamentos, projeto, orçamento, cronograma, contrato, fiscalização, mudanças, testes e recebimento.

A pergunta mais útil, portanto, não é se o empreendimento “tem uma matriz de riscos”. É se os riscos que podem impedir a entrega do benefício público estão conhecidos, atribuídos, tratados, monitorados e refletidos nas decisões do investimento.

Na execução, a fiscalização baseada em risco concentra inspeções, evidências e decisões nos itens capazes de comprometer segurança, qualidade, prazo, custo e aceite.

Apoio Técnico à Fiscalização de Obras e Contratos

Referências técnicas

[1] BRASIL. Lei nº 14.133, de 1º de abril de 2021. Lei de Licitações e Contratos Administrativos. Disponível em: [https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-2022/2021/lei/l14133.htm](https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-2022/2021/lei/l14133.htm)

[2] TRIBUNAL DE CONTAS DA UNIÃO. Licitações e Contratos: Orientações e Jurisprudência do TCU. 5. ed. Seção 2.2 — Gestão de riscos das contratações. Disponível em: [https://licitacoesecontratos.tcu.gov.br/2-2-gestao-de-riscos-das-contratacoes/](https://licitacoesecontratos.tcu.gov.br/2-2-gestao-de-riscos-das-contratacoes/)

[3] TRIBUNAL DE CONTAS DA UNIÃO. Licitações e Contratos: Orientações e Jurisprudência do TCU. Seção 4.5.5 — Matriz de riscos. Disponível em: [https://licitacoesecontratos.tcu.gov.br/4-5-5-matriz-de-riscos/](https://licitacoesecontratos.tcu.gov.br/4-5-5-matriz-de-riscos/)

[4] TRIBUNAL DE CONTAS DA UNIÃO. Licitações e Contratos: Orientações e Jurisprudência do TCU. Seção 4.4.1 — Regimes de execução de obras e serviços de engenharia. Disponível em: [https://licitacoesecontratos.tcu.gov.br/4-4-1-regimes-de-execucao-de-obras-e-servicos-de-engenharia-2/](https://licitacoesecontratos.tcu.gov.br/4-4-1-regimes-de-execucao-de-obras-e-servicos-de-engenharia-2/)

[5] ADVOCACIA-GERAL DA UNIÃO. Modelos da Lei nº 14.133/2021 para pregão e concorrência — Obras e Serviços de Engenharia. Disponível em: [https://www.gov.br/agu/pt-br/composicao/cgu/cgu/modelos/licitacoesecontratos/14133/pregao-e-concorrencia](https://www.gov.br/agu/pt-br/composicao/cgu/cgu/modelos/licitacoesecontratos/14133/pregao-e-concorrencia)

Perguntas frequentes
Qual é a diferença entre gestão de riscos e matriz de riscos?

Gestão de riscos é o processo contínuo de identificar, analisar, avaliar, tratar, monitorar e comunicar riscos. A matriz de riscos é instrumento contratual que aloca determinados riscos e responsabilidades entre Administração e contratado.

A gestão de riscos deve começar somente na licitação?

Não. Ela deve começar no planejamento e acompanhar ETP, levantamentos, projeto, orçamento, contratação, execução, comissionamento e recebimento.

Toda obra pública precisa ter matriz de alocação de riscos?

A Lei 14.133 admite seu uso e a torna obrigatória em obras e serviços de grande vulto e nas contratações integrada e semi-integrada. A análise e a gestão dos riscos da contratação, porém, possuem alcance mais amplo e não se confundem com a matriz contratual.

O que deve constar em um registro de riscos de obra?

Entre os campos úteis estão causa, evento, consequência, probabilidade, impacto, criticidade, owner, ações preventivas, mitigação, contingência, trigger, prazo, risco residual e status.

Como riscos devem se relacionar ao orçamento e ao cronograma?

Riscos com potencial de custo ou prazo precisam ser relacionados às estimativas, contingências, milestones, caminho crítico e forecast, evitando que risco, orçamento e cronograma sejam geridos em sistemas isolados.

Quem deve ser o risk owner?

O owner deve ser a função ou pessoa com responsabilidade para assegurar acompanhamento, tratamento, escalonamento e evidência de resposta. Ele não precisa executar sozinho todas as ações.

O que é risco residual?

É a exposição que permanece após a aplicação dos controles e ações de tratamento. Esse risco residual deve ser considerado nas decisões de readiness e autorização de avanço.

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