Entenda como funciona o Sistema de Mensuração de Desempenho em PPPs, dos indicadores e evidências ao cálculo da contraprestação, fiscalização e governança.

Confira!

O Sistema de Mensuração de Desempenho (SMD) em uma PPP é o conjunto contratual de indicadores, critérios, métodos de coleta, regras de cálculo, evidências e governança usado para transformar o desempenho real da concessionária em uma medida objetiva e auditável. Em contratos nos quais a contraprestação pública depende da disponibilidade e da qualidade do serviço, o SMD liga a operação física ao mecanismo de pagamento: mede o que foi entregue, compara o resultado com metas e padrões, registra desvios e produz a base técnica para bônus, abatimentos, glosas ou outras consequências previstas no contrato.

Um SMD robusto não é apenas uma planilha de KPIs. Ele precisa ser concebido junto com os requisitos técnicos, a matriz de riscos, o mecanismo de pagamento, a fiscalização e a arquitetura de dados da concessão. Se os indicadores forem ambíguos, impossíveis de medir ou desconectados do serviço que realmente importa ao usuário, o contrato perde capacidade de governar desempenho e aumenta o espaço para controvérsia.

O que é um Sistema de Mensuração de Desempenho em PPPs?

Em PPPs, o Sistema de Mensuração de Desempenho é normalmente um anexo contratual que define como será apurado o cumprimento das obrigações de serviço. Sua função é estabelecer uma linguagem comum entre poder concedente, concessionária, fiscalização e, quando previsto, Verificador Independente.

A Lei nº 11.079/2004 admite que a contraprestação da Administração seja variável e vinculada ao desempenho do parceiro privado, conforme metas e padrões de qualidade e disponibilidade definidos no contrato. É nesse ponto que o SMD deixa de ser um instrumento gerencial e passa a integrar a própria arquitetura econômica da parceria.

Na prática, um SMD pode combinar indicadores de disponibilidade física, continuidade, qualidade, tempo de resposta, manutenção, segurança, conforto, atendimento, eficiência, integridade documental e cumprimento de obrigações específicas. A composição depende do objeto: iluminação pública, hospitais, escolas, mobilidade, saneamento, unidades administrativas, infraestrutura social ou outro ativo concedido exigem métricas diferentes.

ElementoFunção no SMDPergunta que deve responder
requisito de serviçodefine o resultado esperadoo que deve ser entregue?
indicadortransforma o requisito em medidacomo o desempenho será observado?
fórmulaconverte evidência em notacomo o resultado será calculado?
meta/faixadefine o nível aceitávelo que significa conformidade?
frequênciadefine quando medircom que periodicidade?
fonte de dadossustenta a apuraçãode onde vem a evidência?
regra de exceçãotrata situações especiaisquando o dado pode ser desconsiderado?
fator de impactoconecta desempenho e pagamentoqual o efeito econômico do resultado?

Por que o SMD é estrutural para uma PPP?

Uma PPP transfere ao parceiro privado obrigações de longo prazo que precisam permanecer verificáveis durante anos ou décadas. O contrato pode exigir investimentos iniciais, manutenção continuada, reposição de ativos, níveis mínimos de disponibilidade e padrões de atendimento. Sem medição estruturada, o poder concedente corre o risco de remunerar presença contratual em vez de resultado efetivamente entregue.

O SMD cumpre quatro funções simultâneas. A primeira é técnica, porque define grandezas, critérios e evidências. A segunda é econômica, porque pode afetar a contraprestação. A terceira é regulatória e de fiscalização, porque cria um referencial objetivo para o acompanhamento. A quarta é de governança, porque registra como divergências serão tratadas e quais dados prevalecem.

Essa integração exige cuidado. Um indicador mal projetado pode estimular comportamento indesejado. Se medir apenas quantidade, pode degradar qualidade. Se punir todo evento sem distinguir causa e responsabilidade, pode contrariar a matriz de riscos. Se depender de dado que só a própria concessionária controla, sem trilha de auditoria, pode perder credibilidade. Se a consequência financeira for desproporcional, pode criar volatilidade e litígio em vez de incentivo à melhoria.

Do requisito técnico ao indicador mensurável

A construção de um SMD começa antes da fórmula. Primeiro é necessário converter a necessidade pública em requisito de desempenho. Somente depois se escolhe a métrica.

Dizer que uma instalação deve permanecer “em boas condições” é insuficiente. É preciso definir o que caracteriza essa condição, quais componentes são críticos, qual indisponibilidade é tolerável, qual tempo de correção é aceitável e como será comprovado o restabelecimento.

O encadeamento correto pode ser representado assim:

Cadeia de transformação do requisito público em resultado mensurável

Necessidade pública

Requisito de serviço

Indicador mensurável

Fonte de dados

Regra de cálculo

Nota de desempenho

Efeito contratual

Cadeia de transformação do requisito público em resultado mensurável

Um bom indicador precisa ter definição operacional suficientemente precisa para que duas equipes independentes, usando as mesmas evidências, cheguem ao mesmo resultado. Isso exige unidade de medida, universo de análise, população ou amostra, frequência, regra de arredondamento, tratamento de dados ausentes, tolerância, fonte oficial e responsável pela coleta.

Indicadores de disponibilidade

Disponibilidade mede se determinado ativo, sistema, ambiente ou serviço estava apto a cumprir sua função durante o período considerado. Em uma unidade de saúde, por exemplo, pode haver indicadores para climatização, energia de emergência, elevadores ou ambientes críticos. Em iluminação pública, a disponibilidade pode ser associada a pontos luminosos operantes. Em mobilidade, pode se relacionar a estações, sistemas de informação, equipamentos ou infraestrutura.

A definição deve separar indisponibilidade real de janelas programadas, eventos de força maior, intervenções do poder concedente ou situações cuja responsabilidade esteja alocada a outra parte. Sem essa compatibilização, o SMD pode transferir risco por via indireta.

Indicadores de qualidade

Qualidade avalia atributos que vão além do simples funcionamento. Um equipamento pode estar “disponível” e ainda assim operar fora da faixa de desempenho. Por isso, indicadores de qualidade podem considerar precisão, conforto, nível de serviço, integridade, limpeza, temperatura, iluminação, ruído, segurança ou outros critérios técnicos.

Indicadores de tempo de resposta

Também são comuns métricas de prazo: tempo entre detecção e registro da ocorrência, mobilização, início do atendimento, solução provisória e solução definitiva. Para evitar distorções, cada marco temporal precisa ter evidência automática ou documental confiável.

SMD, SLA, KPI e nível de serviço: qual a diferença?

Esses conceitos se relacionam, mas não são equivalentes. O KPI é a medida; o SLA expressa um compromisso de nível de serviço; o requisito técnico define a condição esperada; e o SMD organiza o sistema pelo qual esses elementos são medidos e convertidos em consequência contratual.

ConceitoPapelExemplo
requisitocondição técnica exigidagerador deve estar disponível para cargas críticas
KPImétrica usada para observar o requisitopercentual de disponibilidade mensal
SLAnível de serviço acordadodisponibilidade mínima de 99,5%
SMDsistema completo de aferiçãodados, fórmula, evidência, validação, nota e efeito

O erro frequente é construir uma lista extensa de KPIs sem definir o sistema. A existência de muitos indicadores não garante boa governança. Em alguns casos, dezenas de métricas sobrepostas geram custo de coleta, aumentam divergências e diluem o foco sobre o que realmente determina a qualidade do serviço público.

O SMD como cadeia de medição, evidência e pagamento

A mensuração precisa ser tratada como uma cadeia de rastreabilidade. Um resultado financeiro só deveria ser aplicado se for possível voltar da nota final até o dado primário que a originou.

Essa cadeia geralmente envolve identificação do evento; registro no sistema; classificação; associação ao ativo ou serviço; validação da origem; cálculo do indicador; consolidação por período; aplicação de pesos; obtenção do índice global; incidência sobre o mecanismo de pagamento; e registro da decisão final.

A rastreabilidade é especialmente relevante quando o contrato admite contestação de resultados. Se não houver um identificador único para cada ocorrência, histórico de alterações, data e hora, responsável, documentos anexos e justificativa de eventual ajuste, a discussão migra rapidamente da engenharia para uma disputa sobre integridade da informação.

Fonte primária e fonte derivada

Um dado de telemetria, uma ordem de serviço, um relatório de inspeção, um chamado do usuário e uma fotografia de campo têm naturezas diferentes. O SMD deve deixar claro o que é fonte primária e o que é informação derivada.

Quando possível, dados críticos devem ser capturados automaticamente, preservando carimbo de tempo e histórico. Porém automação não elimina governança: sensores falham, integrações podem perder dados e sistemas precisam de regras para indisponibilidade da própria ferramenta de medição.

Baseline: o ponto de partida da medição

Um SMD confiável depende de um baseline técnico verificável. Antes de medir desempenho, é necessário conhecer os ativos existentes, seu estado, pendências e fronteiras de responsabilidade.

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O baseline é a referência contra a qual o desempenho será comparado. Em PPPs envolvendo ativos existentes, essa etapa é crítica porque a concessionária pode receber uma infraestrutura heterogênea, com diferentes condições de conservação, cadastros incompletos e passivos acumulados.

Antes de iniciar a aplicação plena do SMD, pode ser necessário consolidar cadastro patrimonial, estado dos ativos, níveis de serviço existentes, pendências conhecidas, dados históricos e fronteiras de responsabilidade. Sem isso, o primeiro ciclo de medição corre o risco de misturar desempenho da concessionária com deficiências herdadas.

O baseline também é importante quando há fases de modernização. O contrato pode estabelecer patamares progressivos: desempenho durante transição, após a modernização inicial e durante a operação estabilizada. O indicador precisa saber em qual fase cada ativo se encontra.

O cadastro deve conversar com o SMD

Indicadores aplicados por ativo dependem de um cadastro confiável. Cada item relevante deve possuir identificação estável, localização, classe, estado, vínculo com ordens de serviço e histórico de intervenção. Alterações no cadastro precisam ser controladas, pois uma mudança no universo medido pode alterar o resultado sem que o desempenho tenha efetivamente mudado.

Como definir metas, pesos e faixas de desempenho

A meta não deve ser escolhida apenas porque “parece rigorosa”. Ela precisa refletir criticidade, capacidade técnica, custo, maturidade do mercado, risco e resultado público esperado.

Metas excessivamente frouxas permitem deterioração do serviço. Metas tecnicamente inalcançáveis incorporam penalização permanente ao modelo econômico. O objetivo é estabelecer um nível exigente, porém coerente com o objeto e com as premissas que formaram a proposta.

Pesos também precisam ser justificados. Um indicador associado a segurança, continuidade de serviço essencial ou disponibilidade de ativo crítico não deve necessariamente ter o mesmo peso de uma obrigação acessória. A estrutura de pesos é uma representação indireta da prioridade pública.

Uma matriz de criticidade pode apoiar essa calibração:

ClasseConsequência da falhaTratamento típico
críticarisco à segurança, interrupção essencial ou perda relevante de capacidadepeso elevado, resposta imediata e evidência reforçada
altadegradação material do serviçopeso relevante e prazo curto de correção
médiaimpacto perceptível, mas contornávelpeso intermediário
baixaimpacto limitado ou administrativopeso menor e tratamento simplificado

Amostragem: quando medir tudo e quando medir uma parte

Nem todo indicador pode ser medido integralmente em todos os ativos. Inspeções físicas, auditorias de documentação ou avaliações de qualidade podem exigir amostragem.

A amostra deve ser definida por regra anterior ao resultado. Selecionar locais depois de conhecer o desempenho cria viés. O método precisa definir universo, estratificação, tamanho da amostra, periodicidade e critérios de reposição de itens inválidos.

Projetos oficiais de PPP frequentemente atribuem ao Verificador Independente a realização de diligências e verificações em campo, inclusive por seleção de amostras. O importante é que a metodologia seja reproduzível e suficientemente representativa para a finalidade contratual.

Quando o risco de uma falha é alto, a amostragem pode não ser adequada. Sistemas de segurança, continuidade ou obrigações críticas podem exigir monitoramento integral ou inspeções específicas por evento.

Como o desempenho afeta a contraprestação

O mecanismo de pagamento é o ponto em que a engenharia do SMD encontra a modelagem econômico-financeira. O contrato pode calcular uma contraprestação máxima e aplicar fatores de desempenho para chegar ao valor efetivamente devido.

A lógica varia de projeto para projeto, mas costuma seguir um encadeamento semelhante:

Relação entre desempenho medido e contraprestação efetiva

Contraprestação máxima

Índice ou fator de disponibilidade

Índice ou fator de qualidade

Outros fatores contratuais

Contraprestação efetiva

Memória de cálculo e aprovação

Relação entre desempenho medido e contraprestação efetiva

É essencial que o cálculo seja auditável. A fórmula deve evitar degraus irracionais, dupla penalização pelo mesmo evento e efeitos desproporcionais. Um único incidente localizado não deveria, salvo justificativa contratual, produzir consequência equivalente a uma falha sistêmica.

Abatimento não é multa automática

Em muitos modelos, a redução da contraprestação decorre da indisponibilidade ou do desempenho inferior ao nível contratado, enquanto a multa sancionatória possui natureza e procedimento distintos. Misturar os dois mecanismos pode gerar insegurança e duplicidade.

O SMD precisa indicar se uma ocorrência reduz o pagamento, pode gerar penalidade administrativa, exige plano de correção ou combina esses efeitos em situações específicas.

Evitando dupla contagem e efeitos cumulativos indevidos

Um mesmo evento pode afetar vários indicadores. Uma falha de energia, por exemplo, pode tornar um ambiente indisponível, gerar chamados, aumentar tempo de resposta e provocar descumprimento de um indicador de continuidade. Se todos os indicadores penalizarem integralmente o mesmo fato, o efeito agregado pode ser muito superior ao risco originalmente precificado.

Por isso, o projeto do SMD deve mapear correlações entre indicadores e estabelecer regras de precedência, exclusão ou limitação de cumulatividade. Essa análise precisa ocorrer junto com a modelagem financeira, não depois da assinatura do contrato.

Matriz de riscos e SMD precisam ser coerentes

O SMD não pode redistribuir riscos contrariando a matriz contratual. Se determinado evento foi alocado ao poder concedente, o sistema de desempenho precisa reconhecer essa condição quando calcular a nota.

Imagine uma indisponibilidade causada exclusivamente por intervenção determinada pelo poder público. Se o indicador reduzir automaticamente a nota da concessionária sem regra de expurgo, a alocação de risco escrita no contrato será anulada na prática pelo mecanismo de medição.

O mesmo vale para força maior, atraso de obrigação do concedente, indisponibilidade de utilidade externa ou evento atribuível a terceiro, conforme a redação contratual. A integração entre matriz de riscos e SMD deve ser testada cenário a cenário antes da licitação.

Governança de dados: quem mede, quem valida e quem decide?

A arquitetura institucional deve separar funções. A concessionária normalmente produz grande parte dos dados operacionais; o poder concedente fiscaliza; e o Verificador Independente pode apoiar a aferição, validar evidências e calcular indicadores conforme o escopo contratual.

Nenhuma dessas funções elimina a responsabilidade decisória da Administração. O VI fornece verificação técnica independente, mas não substitui automaticamente o poder concedente na prática de atos administrativos nem deve assumir papel incompatível com sua independência.

Uma matriz RACI pode organizar as responsabilidades:

AtividadeConcessionáriaVIFiscalização/Poder concedente
gerar dados operacionaisresponsávelconsultaconsulta
preservar evidênciasresponsávelverificafiscaliza
aferir amostraapoiaresponsável quando previstoacompanha
calcular indicadoresproduz/apoiaverifica ou calculaaprova conforme contrato
tratar divergênciamanifestaemite parecerdecide
aplicar consequência contratualexecuta reflexossubsidiadecide

Auditabilidade e trilha de evidências

Medição contratual exige evidência rastreável, inspeção e capacidade de reconstruir o resultado. A fiscalização técnica estrutura essa cadeia entre campo, documentos, indicadores e decisão.

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O SMD deve ser concebido como um sistema auditável. Cada indicador precisa permitir reconstruir o resultado meses ou anos depois, inclusive diante de auditoria, controle externo ou processo de reequilíbrio.

A trilha mínima pode incluir identificação do ativo, origem do dado, data/hora, responsável, valor bruto, transformação aplicada, exceções, anexos, evidência fotográfica quando cabível, histórico de alterações, versão da fórmula e responsável pela aprovação.

O versionamento é crítico. Se uma fórmula ou parâmetro for alterado após revisão contratual, resultados anteriores não podem ser recalculados silenciosamente. O sistema deve manter a versão vigente em cada período.

Sistemas digitais e integração de dados

PPPs de maior complexidade costumam depender de plataformas operacionais, sistemas de chamados, CMMS/EAM, supervisórios, telemetria, GIS, BIM, CDE, bancos de dados patrimoniais e ferramentas de BI. O SMD precisa especificar interfaces e requisitos mínimos de informação sem amarrar o contrato a um fornecedor específico.

A engenharia deve definir o modelo de dados necessário, não uma marca. Isso inclui identificadores, campos obrigatórios, periodicidade, disponibilidade de API ou mecanismo de exportação, retenção, backup, rastreabilidade, controle de acesso e capacidade de auditoria.

A titularidade e a portabilidade dos dados também precisam ser tratadas. Ao final da concessão, o poder concedente não pode descobrir que anos de histórico de desempenho estão presos a uma plataforma sem formato de exportação utilizável.

Tratamento de dados ausentes, falhas de sensores e indisponibilidade do sistema

Nenhum sistema de medição é perfeito. Por isso, o contrato precisa definir previamente como tratar falta de dados. Existem várias possibilidades: dado substituto, repetição da medição, estimativa conservadora, neutralização do período ou aplicação de regra específica, dependendo da causa.

O ponto central é evitar discricionariedade retroativa. A regra não deve ser inventada depois que se conhece quem será beneficiado pelo resultado.

Quando a ausência decorre de falha do sistema sob responsabilidade da concessionária, o tratamento pode ser diferente daquele aplicado a indisponibilidade causada pelo poder concedente ou por plataforma externa obrigatória. Novamente, a matriz de riscos é o referencial.

Contestação, divergência e mecanismo de cura

Um SMD maduro prevê o que acontece quando as partes discordam. O fluxo deve estabelecer prazo para envio dos dados, prazo de validação, janela de contestação, documentação mínima, possibilidade de correção de erro material e instância responsável pela decisão.

Também é útil diferenciar erro de dado, divergência metodológica e controvérsia contratual. Um erro de digitação pode ser corrigido operacionalmente; uma divergência sobre a interpretação de um evento de força maior pode exigir instância superior de governança.

Para falhas de desempenho, o contrato pode prever mecanismos de cura. A finalidade não é perdoar descumprimentos, mas permitir tratamento proporcional quando o objetivo público é restabelecer rapidamente o serviço. A cura deve ter regra clara e não pode apagar evidência histórica.

Como testar o SMD antes da licitação

Um SMD não deveria chegar à licitação sem teste de cenários. A equipe de estruturação precisa simular eventos realistas e verificar se as fórmulas produzem resultados coerentes.

Entre os testes recomendáveis estão:

  • disponibilidade elevada com pequena falha localizada;
  • falha crítica de curta duração;
  • falha recorrente em ativos diferentes;
  • dados ausentes por problema do sistema;
  • evento de responsabilidade do concedente;
  • ocorrência coberta por regra de força maior;
  • indicador não aplicável em parte do período;
  • mudança de fase da concessão;
  • coexistência de abatimento e penalidade;
  • alteração de cadastro no meio do ciclo;
  • divergência entre telemetria e inspeção de campo;
  • amostra com ocorrência extrema.

Esses testes funcionam como verificação de engenharia do contrato. O objetivo é identificar ambiguidades antes que elas se tornem disputas de longo prazo.

Erros frequentes na estruturação do Sistema de Mensuração de Desempenho

Indicador sem relação com o resultado público

Mede-se uma atividade porque é fácil coletar o dado, embora ela pouco diga sobre qualidade ou disponibilidade. O resultado é um SMD burocrático.

Meta sem base técnica

A meta é copiada de outro contrato sem avaliar objeto, criticidade, ativos, condições locais ou capacidade econômica. Um valor adequado para iluminação pública pode ser irrelevante para hospital, saneamento ou mobilidade.

Fórmula impossível de auditar

Planilhas complexas, referências cruzadas e pesos pouco transparentes tornam o resultado dependente de quem opera o arquivo. A memória de cálculo deve ser reproduzível.

Excesso de indicadores

Quanto maior o número de indicadores, maior o custo de governança. O desenho deve privilegiar um conjunto que cubra os resultados relevantes sem criar redundância.

Dados controlados por uma única parte

Se só uma parte consegue acessar o dado bruto, a outra fica dependente de relatório consolidado. O contrato deve garantir acesso compatível com a fiscalização e a verificação independente.

Falta de integração com a matriz de riscos

É um dos erros mais graves: o SMD penaliza evento que o contrato alocou a outra parte. Essa incoerência gera pleito de reequilíbrio e insegurança na operação.

Relação entre SMD e Verificador Independente

O Verificador Independente é frequentemente contratado para apoiar a aferição dos indicadores, realizar inspeções, validar evidências, consolidar resultados e calcular ou revisar a contraprestação efetiva. Seu papel depende do contrato e não deve ser presumido.

O SMD precisa ser suficientemente objetivo para que o VI não se transforme em autor permanente de regras que deveriam ter sido definidas na estruturação. O verificador aplica metodologia; não deve preencher lacunas essenciais do contrato por decisão unilateral.

Quando o SMD é bem estruturado, o VI consegue concentrar seu esforço na análise de evidências, amostragem, inspeção e validação. Quando é mal estruturado, grande parte do trabalho vira interpretação de ambiguidade.

SMD durante implantação, operação e handback

A medição de desempenho não começa necessariamente apenas na operação plena. Contratos podem prever marcos de implantação, aceites, disponibilidade parcial, testes de sistemas, fases de modernização e obrigações documentais que alimentam o SMD ou mecanismos associados.

Durante a operação, o sistema deve acompanhar a evolução dos ativos e dos requisitos. A revisão periódica pode ser necessária para corrigir indicadores que se tornaram obsoletos, desde que respeitados o equilíbrio econômico-financeiro e o processo contratual de alteração.

Na fase final, dados acumulados de manutenção, falhas, inspeções e condição patrimonial ajudam a avaliar o estado dos bens reversíveis e a preparar o handback. Assim, o SMD também funciona como fonte histórica para a gestão de ativos.

Checklist técnico para revisar um SMD

Uma revisão de engenharia deve verificar, no mínimo:

  1. cada indicador está vinculado a um requisito claro;
  2. a unidade de medida é inequívoca;
  3. o universo e a amostra estão definidos;
  4. a fonte de dados é identificável e auditável;
  5. a frequência é compatível com a criticidade;
  6. a fórmula é reproduzível;
  7. as metas possuem justificativa técnica;
  8. os pesos refletem relevância real;
  9. eventos excepcionais possuem regra de tratamento;
  10. a matriz de riscos é respeitada;
  11. o mecanismo de pagamento não cria dupla penalização;
  12. existe controle de versão;
  13. a concessionária não controla sozinha evidências críticas;
  14. o VI possui acesso suficiente, quando aplicável;
  15. o poder concedente mantém capacidade de fiscalização e decisão;
  16. há fluxo para contestação e correção de erro material;
  17. o cadastro de ativos é consistente com os indicadores;
  18. os dados podem ser exportados e preservados ao longo da concessão;
  19. cenários extremos foram simulados;
  20. o sistema permanece aplicável às fases de implantação, operação e encerramento.

Considerações finais

O Sistema de Mensuração de Desempenho é uma das interfaces mais sensíveis entre engenharia, contrato e economia de uma PPP. Ele precisa traduzir requisitos públicos em medidas objetivas, produzir evidência verificável e conectar o resultado técnico ao mecanismo de pagamento sem contrariar a matriz de riscos.

Um SMD eficaz nasce da engenharia do serviço e da governança dos dados. A pergunta central não é quantos indicadores o contrato possui, mas se cada indicador mede algo relevante, se a evidência é confiável e se o resultado pode ser auditado e reproduzido por terceiros.

Quando essa cadeia é bem desenhada, a fiscalização ganha objetividade, o Verificador Independente trabalha sobre critérios claros, a concessionária conhece os níveis de serviço esperados e o poder concedente consegue remunerar desempenho em vez de mera disponibilidade contratual.

Disponibilidade não é apenas uma fórmula contratual: ela depende de criticidade, falhas, manutenção, redundância e capacidade de restauração. A engenharia de confiabilidade transforma esses fatores em critérios mensuráveis.

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Referências técnicas

[1] BRASIL. Lei nº 11.079, de 30 de dezembro de 2004 — normas gerais para licitação e contratação de parceria público-privada. 2004. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2004/lei/l11079.htm.

[2] BRASIL. Lei nº 8.987, de 13 de fevereiro de 1995 — regime de concessão e permissão da prestação de serviços públicos. 1995. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8987compilada.htm.

[3] SECRETARIA ESPECIAL DO PROGRAMA DE PARCERIAS DE INVESTIMENTOS. Guia Prático de Estruturação de Projetos de PPP de Iluminação Pública. Disponível em: https://ppi.gov.br/wp-content/uploads/2023/01/ppp-de-iluminacao-publica.pdf.

[4] CASA CIVIL / SEPPI. Guia de PPP — contratação do Verificador Independente e mensuração de desempenho. Disponível em: https://www.gov.br/casacivil/pt-br/ocultadas/orgaos/seppi/centrais-de-conteudo/publicacoes-institucionais/guia.pdf.

[5] PREFEITURA DE PORTO VELHO. Educa Porto Velho — minuta de contrato e anexos, incluindo Sistema de Mensuração de Desempenho e Mecanismos de Pagamento. 2026. Disponível em: https://educa.portovelho.ro.gov.br/.

Perguntas frequentes
O que é Sistema de Mensuração de Desempenho em PPP?

É o conjunto contratual de indicadores, metas, métodos de coleta, fórmulas, evidências e regras de governança usado para medir o desempenho da concessionária e, quando previsto, influenciar a contraprestação efetivamente paga.

Qual a diferença entre SMD, KPI e SLA?

KPI é uma métrica; SLA expressa um nível de serviço; requisito define a condição técnica esperada; e SMD organiza todo o processo de medição, evidência, cálculo, validação e consequência contratual.

O SMD pode reduzir a contraprestação da PPP?

Sim, quando o contrato estabelece vínculo entre desempenho e pagamento. A forma depende do mecanismo de pagamento definido na parceria e deve ser coerente com a Lei das PPPs, a matriz de riscos e as regras contratuais.

Quem mede os indicadores de desempenho?

Depende do contrato. A concessionária normalmente gera dados operacionais; o poder concedente fiscaliza; e o Verificador Independente pode aferir, validar ou consolidar indicadores conforme seu escopo.

O que é baseline em um SMD?

É a referência inicial de ativos, condições e níveis de serviço usada para distinguir o estado recebido da infraestrutura do desempenho produzido posteriormente pela concessionária.

Como evitar manipulação dos indicadores?

Com fontes de dados auditáveis, identificadores estáveis, controle de versão, trilha de alterações, acesso da fiscalização aos dados primários, regras de amostragem previamente definidas e validação independente quando prevista.

Indicador de desempenho e multa são a mesma coisa?

Não necessariamente. A redução de pagamento por indisponibilidade ou desempenho pode ser um mecanismo de remuneração, enquanto multa é sanção sujeita ao regime contratual específico. O contrato deve evitar sobreposição ou dupla penalização indevida.

O SMD deve ser testado antes da licitação?

Sim. Simulações de cenários ajudam a identificar fórmulas incoerentes, efeitos desproporcionais, conflitos com a matriz de riscos e problemas de tratamento de dados antes da assinatura do contrato.

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