Disjuntores eletrônicos com funções LSI e LSIG permitem configurar características de atuação para diferentes regimes de sobrecorrente e, em determinadas unidades, falta à terra. L corresponde à proteção de longa duração, S à de curta duração, I à instantânea e G à proteção de falta à terra. Esses ajustes não são padronizados em valores únicos: […]

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Disjuntores eletrônicos com funções LSI e LSIG permitem configurar características de atuação para diferentes regimes de sobrecorrente e, em determinadas unidades, falta à terra. L corresponde à proteção de longa duração, S à de curta duração, I à instantânea e G à proteção de falta à terra. Esses ajustes não são padronizados em valores únicos: dependem do sensor, da unidade eletrônica, do disjuntor, das curvas disponíveis e do estudo de coordenação. A escolha de parâmetros deve considerar cabos, barramentos, transformadores, correntes de curto-circuito, seletividade e requisitos de segurança.

Unidades eletrônicas e arquitetura LSI/LSIG

Como opera uma unidade eletrônica de disparo

A unidade eletrônica interpreta os sinais dos sensores de corrente e aplica as lógicas de disparo configuradas. Dependendo do fabricante, podem existir algoritmos térmicos, registro de eventos, comunicação, medição e testes de funcionamento. A curva efetiva depende de sensores, unidade instalada, firmware, tolerâncias e configurações. O ajuste nominal da carcaça não basta para identificar o comportamento; é necessário saber quais recursos o equipamento efetivamente possui. No artigo central sobre disjuntores BT a escolha dos tipos é apresentada de forma abrangente. Aqui a análise se concentra nas funções eletrônicas, na memória de cálculo e na validação da parametrização.

Função L: proteção de longa duração. A função L destina-se a correntes de sobrecarga sustentadas no tempo. Seus parâmetros precisam ser compatíveis com a capacidade dos condutores, a corrente operacional e as características térmicas dos componentes. Ajuste excessivamente baixo causa desligamentos desnecessários; excessivamente alto pode comprometer a proteção contra sobrecarga. Curva e retardo não devem ser interpretados isoladamente, porque a operação contínua depende do ambiente, da temperatura e do regime das cargas. Além disso, algumas unidades possuem memória térmica ou características específicas de reposição de estado. A memória de cálculo deve identificar valores de projeto, limites térmicos e parâmetros escolhidos, permitindo explicar tecnicamente cada ajuste.

Função S: curta duração e coordenação. Requisitos inadequadamente definidos na fase de projeto transferem riscos para a implantação. Uma revisão técnica deve associar cada premissa aos testes e documentos que demonstrarão a solução implementada.

A proteção de curta duração oferece região temporizada de atuação para correntes mais elevadas e pode contribuir para que o dispositivo a jusante abra primeiro. Contudo, temporizar uma corrente de falta eleva solicitações sobre barramentos, cabos e equipamentos; por isso é necessário comparar ajustes com suportabilidade térmica e dinâmica, incluindo condições de corrente de curto-circuito presumida. O artigo sobre seletividade de disjuntores explica seletividade total e parcial, mas não substitui estudo com modelos, curvas e tolerâncias reais. A região de curta duração deve ser avaliada tanto para falhas próximas como para falhas na extremidade de circuitos.

Função I: disparo instantâneo. A função instantânea responde a níveis elevados de corrente com ausência de retardo intencional, dentro das características do equipamento. Seu ajuste deve levar em conta picos de energização, correntes de partida e valores de curto-circuito disponíveis. Elevar a atuação instantânea sem justificativa pode ampliar a energia liberada durante a falta ou retardar a proteção dos componentes. Reduzir demais o limiar pode provocar desligamento por transitórios normais. A avaliação de Icu, Ics, Icw e demais parâmetros aplicáveis integra a seleção, mas cada grandeza precisa ser interpretada conforme a norma e o modelo. A capacidade de interrupção dos disjuntores é tratada em página própria.

Função G: proteção de falta à terra. A letra G indica função de detecção e atuação em condição de falta à terra quando a unidade disponibiliza esse recurso. Não se deve equipará-la automaticamente a um dispositivo DR de alta sensibilidade. A finalidade, o método de detecção, o ponto de instalação e os limiares podem ser diferentes. A aplicação deve considerar o esquema de aterramento, o trajeto de retorno da corrente, a coordenação com outras proteções e os requisitos normativos de segurança. Uma função G mal parametrizada pode deixar determinada falta sem resposta adequada ou produzir desligamentos desnecessários. A análise precisa abranger transformadores de corrente, sensores de neutro quando pertinentes e eventuais dispositivos coordenados em série.

Funções L, S, I e G

FunçãoProteção predominanteCritério de projeto
LSobrecarga prolongadaCondutores e resposta térmica
SCurta duração temporizadaSeletividade e suportabilidade
ICorrente elevada instantâneaLimiar, inrush e risco
GFalta à terraSensoriamento e topologia
ZSIIntertravamento entre zonasComunicação e lógica de atuação

Estudo de curto-circuito e seletividade como entrada dos ajustes

A transição para operação requer testes planejados, responsabilidade técnica e evidências de integração entre fornecimento, instalação e uso pretendido.

O estudo exige diagramas confiáveis, impedâncias, transformadores, cabos, fontes normais e alternativas, cargas relevantes e condições de operação. Devem ser calculadas correntes de falta adequadas aos pontos de análise e comparadas às curvas, tolerâncias e características de cada dispositivo. O coordenograma é um instrumento importante, mas não suficiente se desconsiderar os limites dos conjuntos ou a validade dos dados de entrada. A NBR IEC 61439 aplicada a QGBT conecta o estudo à suportabilidade do conjunto. Onde houver intertravamento seletivo por zona, a lógica de comunicação entre unidades e os estados de falha também precisam ser verificados conforme o fabricante.

Os ajustes LSI/LSIG não podem ser definidos apenas pela corrente nominal do disjuntor ou pelo padrão de fábrica. A parametrização deve resultar do estudo de curto-circuito, das curvas de proteção, da suportabilidade dos circuitos e da seletividade desejada em cada cenário de alimentação. Na implantação, a fiscalização técnica deve comparar memória de cálculo, folha de ajustes aprovada e parâmetros efetivamente inseridos em cada unidade.

Apoio técnico à fiscalização de obras e contratos de engenharia

Verificação dos ajustes instalados e ensaios. O plano de testes deve distinguir ajuste calculado, ajuste efetivamente programado e resposta observada. Identificação do disjuntor, modelo da unidade, sensor, revisão pertinente, valores de L/S/I/G, temporizações, curvas e funções habilitadas devem constar de folha de parametrização. Métodos de teste podem envolver recursos internos, injeção secundária ou ensaios específicos, conforme recomendação de fabricante e procedimento seguro. A realização de testes em sistemas críticos exige aprovação operacional, avaliação de riscos e contingências. Registros de ensaio sem indicação de configuração e instrumento não demonstram adequadamente a manutenção da seletividade pretendida.

Mudanças de operação, manutenção e controle de configuração. Uma ampliação de carga, substituição de transformador ou alteração de alimentador pode invalidar premissas de estudo. Da mesma forma, mudança de unidade eletrônica ou de disjuntor pode introduzir características diferentes mesmo quando a corrente nominal permanece semelhante. O empreendimento precisa preservar folhas de ajustes, revisões de estudo, diagramas e histórico de intervenções. A equipe responsável pela operação deve conhecer impactos de alterar parâmetros. A ausência de governança de configuração é uma falha recorrente: o projeto prevê um comportamento, mas a condição real de campo evolui sem atualização da documentação.

Curvas tempo-corrente e limites de parametrização

A unidade eletrônica não possui ajustes universais. A interpretação depende do modelo, sensor, tolerâncias e funções disponíveis. Um estudo confiável precisa comparar curvas tempo-corrente, limites térmicos de cabos e barramentos e correntes de curto-circuito máximas e mínimas para diferentes modos de operação.

FunçãoObjetivo predominanteVariáveis de coordenação
L — Long TimeProteção contra sobrecarga de longa duraçãoCorrente de ajuste, curvas e retardo de longa duração
S — Short TimeProteção contra curto-circuito com temporizaçãoLimiar, atraso e seletividade com dispositivos a jusante
I — InstantaneousProteção instantânea para correntes elevadasLimiar e coordenação com faltas próximas
G — Ground FaultDetecção e atuação em faltas à terra, conforme a arquiteturaSensores, caminho residual, limiar e temporização de G

As funções devem ser avaliadas como conjunto. Retardar a atuação da proteção principal pode ampliar a seletividade, mas também aumentar a solicitação térmica e dinâmica do sistema. Elevar I sem estudo pode interferir na proteção de falhas próximas. A função G não deve ser presumida equivalente a DR de alta sensibilidade, pois requisitos de segurança e limiares podem ser distintos.

Cálculo e cenários de operação. Além do unifilar, são necessários dados de fontes, transformadores, geradores, cabos, cargas e dispositivos existentes. A corrente de curto-circuito disponível em alimentação alternativa pode diferir substancialmente da encontrada na operação normal; o estudo precisa verificar capacidade de detecção e tempo de desligamento nas duas condições. Se houver intertravamento seletivo por zona, a lógica e o comportamento diante de falha de comunicação devem ser analisados.

Curvas, curto-circuito e seletividade

Folhas de ajuste, testes e controle de configuração. Cada folha de parametrização deve identificar equipamento, circuito, modelo, sensor, funções ativas, valores, temporizações, responsável e revisão da memória de cálculo. Ensaios apropriados podem empregar recursos internos ou injeção conforme fabricante e método aprovado. A evidência deve indicar valores aplicados, resultados e desvios. Alterações posteriores na carga, na topologia ou no disjuntor exigem revisão do estudo e atualização da documentação as-built.

Coordenação entre L, S, I e G. A avaliação de uma unidade eletrônica precisa considerar o conjunto de funções habilitadas. Uma configuração pode proteger adequadamente contra sobrecarga e falhar na seletividade durante curto-circuito; outra pode ser seletiva em determinada faixa, mas criar tempo de exposição excessivo aos componentes. A análise deve documentar a interação entre regiões de longa duração, curta duração, instantânea e falta à terra, incluindo dispositivos a montante e a jusante. Não existe tabela universal de ajustes aplicável a todos os equipamentos. O estudo exige modelos e versões da unidade, sensores, curvas, tolerâncias e dados do fabricante. Para cada função, deve indicar grandeza supervisionada, limiar, temporização, condição de bloqueio quando existente e consequência para o circuito protegido. Um resultado tecnicamente defensável explica por que os parâmetros foram escolhidos, qual faixa de correntes é coberta e quais limitações permanecem sob condições normais e alternativas de alimentação.

Curvas tempo-corrente e zonas de sobreposição. As curvas tempo-corrente representam regiões de atuação e ajudam a examinar coordenação. O cruzamento de duas curvas não deve ser tratado automaticamente como comprovação completa de ausência de seletividade: tolerâncias, limitação de corrente, características dinâmicas, comportamento de disparadores e ensaios declarados pelo fabricante podem modificar a análise. A engenharia precisa identificar curvas específicas dos modelos instalados e registrar o estado de cada ajuste. Gráficos sem legenda de dispositivos, fonte dos dados ou indicação de sensores são insuficientes para auditoria. Quando a seletividade for contratualmente exigida, o relatório deve definir seus limites e a faixa de corrente contemplada. Em painéis de missão crítica, convém correlacionar o estudo com zonas funcionais e consequências de desligamento. Não basta informar ‘curvas coordenadas’ sem demonstrar quais circuitos permanecem energizados para faltas em cada trecho relevante.

Correntes de curto-circuito máximas e mínimas. A verificação de dados, características de dispositivos e documentação deve preceder decisões de campo com impacto sobre segurança e continuidade. O cálculo de curto-circuito precisa abranger cenários representativos da instalação. Correntes máximas são relevantes para capacidade de interrupção e suportabilidade, enquanto correntes mínimas podem revelar que certos ajustes não detectam uma falha distante no tempo esperado. A topologia deve representar impedâncias da rede, transformadores, cabos, conexões, fontes alternativas e eventuais contribuições de motores. Uma mudança de gerador ou de transformador pode alterar significativamente as correntes disponíveis e invalidar um ajuste que funcionava no sistema anterior. O estudo deve identificar hipóteses, modelos e dados de entrada, distinguindo valores calculados de valores informados por terceiros. Também é necessário observar limites de validade de cada cenário, porque um coordenograma obtido para operação normal não demonstra proteção adequada quando a instalação opera sob uma alimentação alternativa de menor capacidade.

Suportabilidade térmica e dinâmica do QGBT

Quando a função S impõe retardo intencional, barramentos, cabos e dispositivos permanecem sujeitos à corrente de falta por determinado intervalo. Esse período deve ser compatível com suportabilidade térmica e dinâmica dos componentes e com os limites do conjunto de manobra. A série NBR IEC 61439 fornece o enquadramento dos conjuntos, enquanto a NBR IEC 60947-2 aborda características do disjuntor. As duas referências possuem objetos distintos e precisam ser consideradas de forma coerente. O estudo deve utilizar dados de projeto, ensaios e declarações pertinentes do fabricante, não presumir que a presença de barramentos robustos justifica qualquer temporização. Uma alteração de ajuste em equipamento principal pode afetar diversos alimentadores, tornando a responsabilidade técnica e a avaliação de consequências fundamentais. O aceite deve demonstrar que a configuração preserva as funções previstas e respeita as características de cada elemento protegido.

Parametrização e cenários de alimentação

Fluxo de estudo, parametrização e verificação de disjuntores LSI/LSIG

Dados de cargas e fontes

Cálculo de curto-circuito

Estudo de seletividade

Folhas de ajustes

Aplicação em campo

Ensaios e leitura de retorno

Configuração aprovada

Fluxo de estudo, parametrização e verificação de disjuntores LSI/LSIG

Função L: corrente de carga, sensor e tempo. A função de longa duração deve ser selecionada observando corrente operacional, capacidade de condução dos condutores, fatores de correção, regime de carga e características dos sensores. Ajuste baixo pode gerar desligamentos indevidos; ajuste alto pode reduzir proteção contra aquecimento sustentado. Em aplicações com cargas variáveis, importa compreender o perfil de demanda e a característica térmica do circuito. A presença de recurso de memória térmica em determinados dispositivos altera a interpretação de eventos sucessivos, exigindo consulta à documentação do fabricante. Não se pode escolher o parâmetro apenas pelo valor escrito na frente da carcaça, pois sensores e unidades de disparo podem definir faixas distintas. A planilha de ajustes deve relacionar cada valor à memória de dimensionamento e à função do alimentador. Mudanças relevantes de carga exigem revisão do estudo, mesmo quando o quadro continua operando sem disparos.

Função S: seletividade e intervalo temporizado. A função de curta duração pode permitir a atuação preferencial de proteção situada mais próxima da falta, desde que a coordenação exista na faixa de correntes considerada. A temporização também significa que determinadas partes da instalação permanecerão solicitadas durante o intervalo programado. Por isso, o engenheiro deve comparar retardo, capacidade de interrupção e suportabilidade, além de verificar a interação com a função instantânea. Em sistema com disjuntores de modelos diferentes, não basta replicar números de ajuste: curvas, tolerâncias e limites de cada unidade podem variar. A memória de cálculo deve mostrar quais dispositivos foram comparados, sob quais correntes, e se há seletividade total ou parcial segundo a documentação aplicável. Se as condições de operação mudarem por alimentação alternativa ou expansão, os valores devem ser reavaliados antes de aceitar a continuidade do comportamento pretendido.

Função I: limiar, energização e falta próxima. A função instantânea deve responder a correntes elevadas segundo as características e tolerâncias da unidade. Elevar demasiadamente seu limiar pode prolongar a exposição a uma falta, com impacto sobre energia incidente e esforços nos equipamentos. Reduzir o limiar sem considerar partidas e energização de transformadores pode produzir atuações indesejadas. A seleção deve confrontar correntes de curto-circuito, inrush e demais transitórios, sempre com dados do equipamento e do circuito. Em determinadas arquiteturas, a estratégia de seletividade pode envolver funções instantâneas específicas e recursos de intertravamento. Essas soluções não devem ser generalizadas sem evidência técnica. O relatório precisa explicar como o ajuste instantâneo se relaciona aos limites da função S e aos dispositivos a jusante. Uma decisão sobre desabilitar determinada função, quando tecnicamente possível, exige justificativa formal e análise das condições de segurança.

Função G: arquitetura de detecção à terra. A função G está associada à proteção de falta à terra, mas sua aplicação depende da arquitetura de sensores, topologia de neutro e caminhos de retorno. Não deve ser presumida equivalente à proteção diferencial de alta sensibilidade exigida em certos circuitos para proteção adicional de pessoas. O estudo precisa definir a finalidade de G, método de detecção, valores, temporizações e coordenação a montante e a jusante. Em sistemas com múltiplas fontes e caminhos de terra, a detecção pode exigir avaliação detalhada de ligação e sensoriamento do neutro. Quando a configuração produz desligamento geral para faltas em circuito secundário, convém examinar a seletividade entre zonas e a disposição dos sensores. O plano de testes deve reproduzir adequadamente os estados previstos e documentar as limitações. Uma função instalada e não parametrizada ou sem evidência de testes não comprova a proteção pretendida.

A coordenação entre L, S, I e G depende de temporizações, tolerâncias, sensores e eventuais intertravamentos por zona. Mesmo um estudo corretamente desenvolvido pode deixar de proteger a instalação se a configuração em campo divergir da aprovada. O comissionamento exige conferência identificada dos ajustes, ensaios de atuação compatíveis com o fabricante e registro das condições de teste, inclusive das lógicas de intertravamento quando aplicáveis.

Comissionamento de equipamentos e testes

Intertravamento seletivo por zona e falha de comunicação

O intertravamento seletivo por zona, presente em determinadas famílias de disjuntores eletrônicos, utiliza sinais entre dispositivos para modificar sua resposta conforme a localização provável da falta. Sua eficácia depende do projeto lógico, cabeamento, configuração e capacidade de cada unidade. Não se deve considerar a simples presença de terminais ZSI como comprovação da função. A documentação precisa representar ligações, zonas protegidas, comportamento esperado com e sem sinais e estados de manutenção. No comissionamento, os testes devem examinar respostas normais e cenários de falha de comunicação previstos pelo fabricante, de modo seguro e controlado. A interface entre elétrica e automação precisa definir quem instala, configura e verifica cada conexão. Falhas de sinalização podem eliminar uma vantagem de seletividade ou modificar tempos de atuação. O aceite deve ser vinculado a resultados reproduzíveis e identificação inequívoca dos equipamentos.

Ensaios, intertravamento e controle de ajustes

Fontes alternativas e mudanças de topologia

A passagem da instalação para a operação exige procedimentos de ensaio aprovados, atribuição de responsabilidades e resultados rastreáveis. Quando um QGBT pode ser alimentado por concessionária, gerador ou outra fonte, os valores de falta disponíveis e as condições de coordenação podem mudar. A operação por gerador frequentemente apresenta comportamento de contribuição para curto-circuito diferente daquele da alimentação pela rede. Um estudo que avalia exclusivamente o regime normal pode deixar de identificar falhas com corrente insuficiente para atingir determinado limiar ou tempo de desligamento inadequado. A documentação deve incluir os cenários previstos de transferência, acoplamento e manutenção, assim como restrições operacionais. Caso sejam necessárias configurações distintas, a estratégia de seleção e controle de ajustes requer engenharia específica e verificação segura. Também devem ser consideradas expansão de cargas, alteração de transformadores e substituição de disjuntores. A governança da instalação precisa determinar quando uma mudança exige revisão do estudo de proteção.

Parametrização em campo e testes de atuação

A verificação em campo deve confrontar folha de ajustes aprovada com parâmetros efetivamente programados. O relatório identifica disjuntor, localização, modelo, unidade, sensor, valores, função habilitada, responsável e condição operacional. Ensaios podem incluir recursos internos e injeção secundária ou procedimentos específicos conforme fabricante e instrumento. Testes que causem abertura de disjuntor em instalação energizada exigem planejamento e coordenação com operação, avaliando consequências. Um resultado de teste sem registrar configuração e equipamento não comprova que a proteção instalada corresponde ao estudo. Se o ensaio divergir da curva prevista, devem ser investigados método, unidade, sensores, alimentação auxiliar e parâmetros. Ajustar o dispositivo apenas para satisfazer o ensaio sem revisar a memória de proteção é prática inadequada. A documentação de aceite deve incluir evidência de retorno de leitura e identificação dos desvios tratados.

Governança de ajustes e controle de revisões

Alterações em dispositivos de proteção precisam de controle de revisão. Um técnico pode substituir uma unidade eletrônica por modelo aparentemente equivalente que apresenta outros parâmetros ou curvas. Também pode aplicar ajustes restaurados após manutenção que não correspondem à folha aprovada. Para evitar divergências, o empreendimento deve conservar memória de cálculo, arquivos de configuração, folhas de ajuste por equipamento, responsáveis pela aprovação e histórico das modificações. O processo de mudança deve exigir avaliação de impactos antes da aplicação, registros de valores anteriores e comprovação dos novos parâmetros. Uma ampliação de carga ou alteração de topologia pode invalidar pressupostos mesmo quando não há defeito aparente. Sistemas supervisórios podem auxiliar o registro, mas não substituem leitura de confirmação em campo. A confiabilidade depende da capacidade de demonstrar quais ajustes estavam válidos em determinado momento e qual estudo os fundamentava.

Documentação e contratação do estudo

A contratação de estudo de proteção deve delimitar quadros, alimentadores, fontes e modos de operação. O escopo inclui levantamento de dispositivos, revisão documental, cálculo de curto-circuito, análise de curvas, avaliação de seletividade, folhas de ajustes, plano de ensaios e condições de aceitação. Deve indicar se a aplicação de parâmetros em campo está incluída ou se será executada por terceiros. A equipe precisa ter acesso aos dados reais de fabricantes e às características da instalação; informações ausentes devem ser registradas como premissas e riscos. Entregáveis revisáveis são mais úteis que tabelas soltas: coordenogramas, memória de cálculo, matriz de proteção, relatórios de teste e as-built. O aceite deve confirmar consistência entre projeto, unidade instalada e configuração efetiva. Em sistemas críticos, uma revisão independente pode acrescentar controle antes da aplicação de ajustes com impacto potencial sobre continuidade e segurança.

Tolerâncias, memória térmica e tempos de atuação

O tempo observado de disparo pode diferir do ponto idealizado de uma curva devido a tolerâncias e características internas da unidade. Determinadas proteções eletrônicas utilizam modelos ou memória térmica para representar aquecimento acumulado, alterando a resposta a eventos sucessivos. O estudo deve utilizar curvas e documentação do fabricante da unidade instalada, com atenção às condições em que os dados foram definidos. Para avaliar seletividade, não basta sobrepor linhas sem faixas e considerar uma separação visual pequena como prova de coordenação. A memória de cálculo precisa explicar limites e eventuais regiões de sobreposição. Durante ensaios, o procedimento e a condição inicial podem influenciar resultados, de modo que a documentação deve especificar método e parâmetros relevantes. Uma divergência exige investigação antes de alterar ajuste ou declarar falha do equipamento.

Governança, documentação e contratação

Proteção principal, seletividade e energia incidente

A verificação exige registro do contexto de projeto, método de inspeção e consequências da intervenção. O tempo de eliminação de falha é um dos fatores que influenciam energia incidente em determinados cenários de arco elétrico. Uma estratégia de seletividade que introduz retardo precisa, portanto, ser avaliada também sob ótica de risco ocupacional e características elétricas do conjunto. Não significa que proteção instantânea deva sempre ter menor limiar nem que uma configuração seletiva seja necessariamente insegura; a decisão depende de topologia, modos de operação, equipamentos e resultados de estudos apropriados. O estudo de proteção deve manter coerência com avaliações de riscos elétricos e com medidas de segurança. Em QGBT críticos, a justificativa de ajustes pode requerer análise de alternativas, como zonas de proteção e recursos específicos de fabricante. A conclusão não pode ser baseada apenas em disponibilidade operacional: precisa considerar segurança de pessoas e suportabilidade de componentes.

Sensoriamento de neutro e função G

Quando a função de falta à terra depende de sinais de corrente em sistemas com neutro, a seleção e conexão dos sensores podem determinar o comportamento da proteção. Topologias com múltiplos transformadores, barramentos de acoplamento e fontes alternativas exigem atenção especial aos possíveis caminhos de retorno. Um sensor omitido, ligado incorretamente ou parametrizado fora da configuração prevista pode fazer a unidade interpretar de maneira inadequada a condição de falta. O levantamento deve confrontar desenhos de ligação, documentação do fabricante e instalação de campo. Ensaios funcionais precisam utilizar métodos compatíveis com a unidade e não devem criar falta real para observar atuação. A engenharia deve diferenciar a função G das medidas adicionais de proteção por dispositivo diferencial residual em circuitos terminais. A existência de G no disjuntor principal não dispensa avaliação normativa dos demais circuitos.

Como contratar estudo de proteção e parametrização LSI/LSIG

O escopo deve incluir levantamento da instalação, cálculos de curto-circuito, estudo de seletividade, seleção de funções e ajustes, memória de cálculo, análise de coordenação com dispositivos existentes e folha de parametrização por equipamento. Quando aplicável, incluir plano de ensaios, verificação das configurações em campo e atualização do as-built. O contratante deve definir quem aprova mudanças, quem opera os dispositivos, como serão registrados os resultados e em quais condições o sistema será considerado aceito. A entrega técnica não termina na apresentação de uma tabela: precisa demonstrar a correlação entre modelo, circuito, configuração, função de proteção e resultado verificável.

Folha de ajustes e critérios de aprovação

A implantação deve ser seguida por ensaios que demonstrem o funcionamento e a conformidade esperados. A folha de parametrização deve registrar, para cada dispositivo, identificação funcional, localização, circuito, modelo, sensor, faixa de valores, ajustes selecionados, temporizações e revisão do estudo correspondente. Também pode ser necessário informar acessórios e configuração de comunicação, quando interferem na lógica de proteção. O fluxo de aprovação deve separar elaboração do estudo, revisão técnica, autorização operacional, aplicação e conferência de parâmetros. Se o ensaio de campo revelar discrepância, registra-se não conformidade com tratamento formal; não se modifica o valor apenas para alcançar aprovação pontual. A revisão final da folha deve corresponder à configuração efetivamente instalada, com registro de alterações e responsáveis. Esse procedimento reduz risco de ajustes serem sobrescritos durante manutenção, atualização de unidade ou substituição de disjuntor. O aceite inclui demonstrar coerência entre documentação, configuração e testes realizados.

Exemplo: expansão industrial com fonte de emergência

Uma indústria instala nova linha de produção e passa a alimentar parte do QGBT por gerador durante contingências. A nova carga modifica corrente operacional, partidas e possivelmente as correntes de falta em alguns trechos. O estudo precisa atualizar cálculos para a rede e o gerador, verificar suportabilidade, analisar curvas L/S/I/G e confirmar seletividade pretendida em cada modo. Uma folha antiga de ajustes pode permanecer funcional em operação normal e falhar na condição de emergência. Antes de alterar parâmetros, a equipe define a capacidade de interrupção, condições de segurança e requisitos de disponibilidade. Depois, aplica os ajustes aprovados e executa verificações planejadas, mantendo registro dos resultados. O dossiê final integra unifilares, memória de cálculo, coordenogramas, folhas de ajustes e pendências. Esse exemplo demonstra por que a parametrização é uma etapa de engenharia de sistemas, não uma operação isolada de interface no disjuntor.

A liberação de um QGBT com disjuntores eletrônicos deve estar condicionada à rastreabilidade dos ajustes instalados, ao fechamento das não conformidades e à compatibilidade dos testes com o estudo de proteção aprovado. Uma folha de ajustes sem identificação, revisão ou evidência de conferência não demonstra seletividade nem desempenho. O recebimento técnico deve consolidar as configurações aceitas e as restrições remanescentes para operação e manutenção.

Recebimento técnico de obras e serviços de engenharia

Considerações finais

Disjuntores LSI/LSIG não oferecem seletividade por sua simples capacidade de ajuste. A qualidade da proteção resulta da coordenação entre corrente de curto-circuito disponível, suportabilidade da instalação, curvas de atuação e comportamento dos dispositivos em cada topologia de alimentação. Elevar limiares ou ampliar atrasos para evitar desarmes, sem verificar os efeitos térmicos, dinâmicos e de segurança, pode transferir a falha para um nível mais crítico do sistema.

O parecer técnico deve, portanto, vincular cada parâmetro à hipótese de cálculo e ao cenário operacional correspondente. A proteção só está demonstrada quando os ajustes efetivos são identificados, conferidos e testados segundo método apropriado, com revisões controladas após alterações de carga, equipamentos ou fontes. Uma folha de parametrização isolada não substitui o estudo nem comprova, por si só, a coordenação em campo.

Referências técnicas

[1] ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. ABNT NBR IEC 60947-2:2013 — Disjuntores de baixa tensão. Disponível em: Catálogo ABNT.

[2] ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. ABNT NBR IEC 61439-1:2016 — Regras gerais para conjuntos de baixa tensão. Disponível em: Catálogo ABNT.

[3] ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. ABNT NBR IEC 61439-2:2016 — Conjuntos de manobra e comando de potência. Disponível em: Catálogo ABNT.

[4] IEC 60947-2 — Low-voltage switchgear and controlgear: circuit-breakers. Disponível em: IEC 60947-2:2024.

Perguntas frequentes
O que significam L, S e I?

Longa duração, curta duração temporizada e atuação instantânea.

O que G acrescenta?

Proteção de falta à terra em unidades compatíveis.

Os ajustes são universais?

Não. Dependem dos modelos, sensores e cálculos.

A função G substitui DR?

Não é possível presumir equivalência.

S sempre garante seletividade?

Não. Depende das curvas e da faixa de correntes.

Pode elevar I para impedir disparos?

Somente após estudo e avaliação de riscos e suportabilidade.

O que é ZSI?

Intertravamento seletivo por zona em equipamentos que o suportam.

Por que estudar gerador?

As correntes de falta podem mudar no modo alternativo.

Como comprovar ajuste correto?

Com folha aprovada, conferência de campo e ensaios documentados.

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